domingo, 30 de maio de 2010

Resta-nos o instante e a vontade...

Para superar a aflição do vazio, da falta de sentido, do nada em que estamos à deriva, é preciso coragem e criatividade. Mas a coragem surge do medo e a criatividade não é possível sem, antes, uma boa dose de imitação.


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Afirmar inclusive o que nos desgosta é tarefa para monges.

sábado, 29 de maio de 2010

Elogio da vaidade

A vaidade pode ser motivo de excelentes obras, enquanto a falta de vaidade não traz nenhum benefício. Mesmo a inteligência é um movimento exaurido de vaidade. Há aqueles para quem a vaidade é justamente mostrar-se como quem não tem vaidade. Suspeito que a falta de vaidade pode levar à autodestruição.

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A modéstia é hipocrisia, uma vaidade que supõe o inferior como melhor, e assim deseja-se ser visto como inferior. A modéstia também é vaidade, mas carregada de efeito moral.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

em tempos de fabricação industrial humana e destruição em massa...

o avanço tecnológico nos tornou capazes da autodestruição bem antes de nos tornar capazes da perpetuação.
Assim, toda promessa da ilustração, a promessa da ciência como boa luz para nos guiar, pode terminar por nos custar a própria existência.
Talvez a ciência seja um perigo para a espécie, assim como a metafísica platônica é um perigo para cada indivíduo.
Isso porque o modelo sempre quer substituir o modelado; a explicação deseja tomar o lugar daquilo que se explica; o nome quer ser o próprio nomeado.




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APENAS DO MEU LABOR POSSO VALER-ME.

O trabalho aprisiona. Mas em algumas circunstâncias, uma prisão razoavelmente confortável é mais desejada que a liberdade dura e fria, em que temos que literalmente lutar pela sobrevivência.



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Imitamo-nos porque a genuina originalidade infere absoluta imotivação e,se tal fosse possível, nos acometeria de tamanha perplexidade que cada movimento tornaria-se muito mais difícil. A vida fica muito mais difícil em um (im)possível estado de total liberdade.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

anti-socráticas

para desmentir um ludibriador, temos que inventar uma mentira mais convincente.


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Eu gostaria que Aristófanes tivesse sido mais eficaz. Mas não há motivo para querer atrasar o sol: o decorrer do dia, e da sombra portanto, é inevitável.
Uma criança que acaba de começar a andar e quer correr. Balbucia monossílabos e acredita contar histórias detalhadas.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

frágeis edifícios

Refutar uma teoria depende da refutação de apenas uma de suas muitas afirmações.
É mais fácil derrubar um prédio do que erguê-lo.
Não devemos habitar o alto de um edifício que pode ser facilmente derrubado.
Por isso, ao edificar, é prudente que se tente derrubar a construção a cada degrau galgado.

A inconsciência contra a dor

Inventamos muitas artimanhas para lidar com a dor. Acreditar que a dor é justa, cabida e devida é uma delas. Mas para que nosso método surta efeito, temos que nos proteger da consciência sobre a crença numa invenção descarada, da consciência de que somos inocentes. Então, valemo-nos de outra artimanha: consideramos ser a tal consciência uma sensação refutada, da qual precisa-se fugir. Com este último artifício, cristalizamos gerações alienadas da obviedade de que nada é justo. A idéia de justiça, que intenta dar força aos mais fracos de uma relação, é, em si, injusta. A justiça é uma invenção que guarda em si um erro de perspectiva.

Pela diferença

Entre pessoas tão diferentes impõe-se a igualdade, com a alegação de que assim alcançaremos a liberdade e a justiça. É assim que suprimimos toda a liberdade e justiça.
Não é porque a verdade não é possível, que a mentira também não é. Mas a mentira também não é a única possibilidade, como a lógica poderia nos fazer concluir. Eis aí uma questão de meio-termo.

terça-feira, 25 de maio de 2010

As verdades de hoje são as mentiras de amanhã.

Se a sabedoria fosse possível, já a teríamos conquistado há séculos. Apenas na arte de manipular o mundo podemos avançar. No campo do conhecimento podemos derivar, refutar, desconstruir, inventar, dividir, considerar... mas não chegar a um saber definitivo.

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A irrefutabilidade de um argumento não o valida necessariamente.

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A particularidade humana acredita-se universal num pequeno canto do Universo.

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A ciência é lente para alguns e venda para outros: aqueles que acreditam ver algo a mais com a ciência, veda-se; aquele que sempre se incomoda com a vista embaçada dos óculos científicos, enxerga mais longe. Para ser mais direto: o saber científico somente ocorre a quem desconfia deste saber – o desconfiar é a própria ciência.

domingo, 23 de maio de 2010

a ciência alienada

A exatidão, a precisão exigida na academia determina sua chatice e, por conseqüência, o afastamento daqueles que não têm disposição para tanto fastio. O que há de maçante na ciência é mais um muro erguido pelos próprios cientistas. Para se protegerem, é claro.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

a palavra "eu"

O substrato lingüístico da subjetividade talvez seja a origem do enorme erro em que incorremos ao acreditar que somos algo além de nosso próprio corpo. Não há algo que exista fora da materialidade, nada que possa ser chamado de “eu” além do organismo que pronuncia tal pronome.

contra a finitude, inventamos o infinito.

Não que a idéia de eternidade traga mais conforto que desespero, se levada a sério. Mas as pessoas se agarram a ela pelo que ela tem de confortante.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Não estamos em nenhuma subida. E nem em uma descida. Todos os comentários que comparam passado, presente e futuro são embotados de uma perspectiva ora nostálgica e pessimista, ora arrogante e pretensiosa.


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O acaso também é capaz de espetáculos extraordinários. Apenas são raros, mas eles são possíveis.

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É confesso que a idéia de recompensa post-mortem advém de uma esperança, que guarda em si a presunção de considerarmo-nos merecedores de algo, de algum prêmio, já que suportamos a vida tão amistosamente... A idéia de eternidade é conseqüência da nossa insatisfação para com a vida.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Quantos gritos ao vento são desperdiçados?
Não adianta colocar mensagens em garrafas
E lançá-las ao mar nos dias de hoje.

a pele da alma

Quanto maior a auto-estima de uma pessoa, menor sua vaidade.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Ao escolher os dominadores, consentimos a dominação.

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O exercício da força somente é repreendido se considerado injusto. Parecendo justa, toda violência é aceita.

Questionemos, sim. Mas não de onde, para onde, para quê ou por quê. Como!

Entre tantas idéias disponíveis e sedentas de atenção, tudo parece igual, todas parecem possíveis, qualquer luz quer fazer sol.
Somente as palavras próximas tecem as verdades de agora. Ou mais: somente vemos, cremos e dizemos o que as palavras próximas determinam. Não somos nós quem usamos as palavras: elas é que nos usam. E sobrevivem a nós...
As próximas palavras me desmentirão.

domingo, 16 de maio de 2010

Percebo uma enorme discrepância entre nossa capacidade de correr e a lenta velocidade com que caminhamos.

A sabedoria é a recompensa mais sedutora. Prometa-a àqueles que desejares persuadir.

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A obviedade, muitas vezes, é justamente aquilo que ninguém percebe.
O que ainda se pode fazer para superar a dor,
Agora que sabemos que o remédio disponível é placebo?
Agora que não podemos acreditar em nenhuma promessa,
Agora que refutamos a salvação pela vida abstêmia,
Agora que nenhum sonho pode significar realidade,
Agora que a justiça teve sua máscara quebrada
Agora que nos tornamos imunes ao torpor e a hipnose das palavras sempre dúbias...

Como atravessar esse fio tênue
Conscientes do abismo sob nossos pés?
A arte? A filosofia? A felicidade?
O que ainda poderá servir de motriz neste vácuo?
O que ainda poderá servir de pernas nesse solo tão movediço?
O que servirá de bússola nesse horizonte sem norte?

sábado, 15 de maio de 2010

Por medo da liberdade dos outros, suprimimos a nossa própria.

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A postura discursiva que um sujeito adota diante das diversas ocasiões determina inclusive seu humor. E também seu pulso cardíaco, pressão arterial, grau de sudorese e até mesmo a velocidade de digestão. Entretanto, o que é mais agressivamente afetado por algumas posturas discursivas é a inteligência do indivíduo.

os loucos e os sóbrios

Um delírio que seja belo é o que deseja um romântico louco, uma alucinação que lhe faça flutuar. E quando a encontra, apaixona-se obsessivamente. E então é capaz de apagar do mundo a sua volta tudo o que há de feio e triste. Disto embriaga-se o louco: da beleza ofuscante que, ainda que irreal, seja capaz de realmente elevá-lo.
Dos problemas ocupam-se os sóbrios. Estes encontram no que há de feio e triste o motivo de suas artes. E procuram acentuar bastante a penúria em que vivem, a ponto de apagar qualquer beleza que possa haver a seu redor.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A dor é a primeira moeda. O dinheiro foi uma sublimação do exercício da força (e da dor, portanto).

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A INTENÇÃO DE VERDADE NÃO ESTÁ CONDENADA PELA SUA IMPOSSIBILIDADE...

...e não é porque a verdade não é possível, que a mentira também não é. Quem poderia afirmar que um mero fundo de realidade psíquica valida uma mentira, acreditaria facilmente em fadas e duendes. Mas a mentira também não é a única possibilidade, como a lógica da oposição poderia nos fazer concluir. Eis aí uma questão de meio-termo.

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As rosas escamoteiam o sepulcro.
Superfícies calmas guardam profundezas agitadas.

A quem rejeita os prazeres, é natural que o corpo lhe pareça um fardo.

CONTRA A VIDA ABSTEMIA
Teria um fim a ciência? Quando saberemos tudo? Seria, algum dia, respondida a última questão?
A paralaxe discursiva da perspectiva a que estamos sujeitos, a dicotomia dos ideais em que estamos imersos, a dialética modelar das proposições filosóficas, o substrato lingüístico da subjetividade... Tanta coisa nos impede de ver o mundo! Quantos óculos ainda restam tirar? Já não arrancamos até mesmo nossos próprios olhos?

Ao colher flores, é comum que um espinho nos espete o dedo.

Assim como é comum espetar-se com uma mentira quando se tenta apanhar a verdade.

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Refutar uma teoria depende da refutação de apenas uma de suas muitas afirmações. É mais fácil derrubar um prédio do que erguê-lo. Não devemos habitar o alto de um edifício que pode ser facilmente derrubado. Por isso, ao edificar, é prudente que se tente derrubar a construção a cada degrau galgado. Mas quem edifica geralmente é patologicamente incapaz de derrubar o tijolo recém assentado.


Um comediógrafo pode ser capaz de maiores verdades do que um pensador.

Não basta que uma teoria seja refutada. Ela precisa ser desprestigiada para que surja em seu lugar alguma nova idéia, que demorará muito até que, enfim, caia em desprestígio também. Aí então, se a primeira teoria não tiver alta rejeição, torna-se a principal candidata a corresponder à verdade novamente.

A hipertrofia de um órgão pode ser patológica, mesmo porque, na maioria dos casos, advém de um vício. Mas ainda assim, mesmo resultantes do vício, a hipertrofia tem seu valor. Isto é, mesmo que custe um empenho doentio, que cobre de seu possuidor uma devoção maléfica, o resultado de tanto foco é um órgão notoriamente privilegiado e desejado, portanto.

A hipotrofia das partes não exercitadas é que não tem qualquer valor, ainda que resulte de uma virtude. Um cérebro forte geralmente é carregado por um corpo debilitado, com músculos que lhe parecem fracos demais, indesejável e repudiado por todos.

É o resultado do tempo, do foco e da proporcionalidade.

Nenhuma dor será recompensada. Ainda que a denominemos sacrifício.


Pés aquecidos se recusam a andar...


Não tente salvar-se com palavras: agarrar-se à nuvem não é possível. Sócrates foi condenado! Um exemplo incontestável.

Sentimentos também não salvam. Quando muito anestesiam. Mesmo Jesus foi condenado: um exemplo insuperável!

Apenas a ação pode salvar! Mas agir é justamente a privação moral, a fraqueza, a covardia dos homens modernos.